Nudge: estímulos racionais em situações de comportamentos irracionais podem ajudar no enfrentamento da Covid-19

Nosso comportamento não é tão racional como esperamos ou gostaríamos que ele fosse. Em vez disso, sem perceber agimos contra a racionalidade de forma sistemática em nosso dia a dia, inclusive tomando decisões contrárias ao nosso próprio bem-estar[1]. O que explica esse comportamento? Seria possível usar esse fenômeno para ajudar no combate da Covid-19? Este artigo busca aprofundar a discussão sobre essas questões e levantar sugestões que possam ser usadas de forma efetiva na mudança de comportamento e combate ao vírus.

Nos últimos anos, tem crescido o interesse sobre maneiras de influenciar nossas escolhas e comportamentos aproveitando vieses cognitivos (distorção ou desvio da lógica), heurísticas (processos ou estratégias para tomada de decisão) e outros aspectos não racionais. Fazemos muitas coisas “sem pensar”, por costume ou por impulso, seguindo o que a maioria das pessoas pensa e faz ou ainda reagindo ao ambiente onde estamos. Mudanças aparentemente pequenas no ambiente, no entanto, são capazes de nos ajudar a tomar decisões melhores. Essa é a ideia do nudge[2], apresentada por Richard Thaler e Cass Sunstein em 2008[3], para descrever intervenções que podem encorajar comportamentos saudáveis sem restringir nossa liberdade de escolha.

O nudge funciona porque nossas decisões e atitudes são fortemente influenciadas pela maneira como determinada situação é apresentada. A posição dos pratos em um buffet não obriga ninguém a seguir uma dieta, mas será que comeríamos a mesma quantidade de salada se ela não viesse antes das demais opções? Assim, quem é responsável pela apresentação dessas situações de escolha – quem tem o poder de organizar objetos, palavras, imagens – tem o poder de influenciar em alguma medida nossas decisões e comportamentos[4].

Trata-se de uma técnica interessante especialmente em situações nas quais os efeitos dos nossos comportamentos não são imediatos ou ainda estão incertos, quando as escolhas são difíceis, inéditas ou pouco frequentes, sem que haja tempo suficiente para aprendizado nem respostas adequadas que nos mostrem se estamos no caminho certo[5]. Por exemplo, imagine que ao tirar a carteira de motorista você precisa assinalar em um questionário se gostaria de doar seus órgãos caso ocorra uma fatalidade. Essa é uma decisão complexa, difícil de ser tomada, e pode paralisar as pessoas. Sabendo que tendemos a seguir a opção padrão, a questão pode ser formulada em outros termos, pedindo que você assinale se não quiser doar seus órgãos. Muitas pessoas que não têm certeza do que fazer vão deixar o questionário como está, ou seja, sem marcar que não querem doar órgãos.


No Brasil e no mundo os casos e as mortes provocadas pelo novo coronavírus aumentam a cada dia[6]. O Ministério da Saúde estima, com base na evolução do contágio no país, que o número de casos da doença pode dobrar a cada três dias se as medidas recomendadas para proteção e prevenção contra a transmissão da doença não forem seguidas com rigor[7]. Essas medidas incluem lavar as mãos, evitar tocar o rosto com as mãos, cobrir a boca com o antebraço ao tossir e espirrar, restringir o contato social, evitar aglomerações e praticar o distanciamento físico.

Como usar o nudge para reduzir as formas de contágio?

É possível que muitos de nós tenhamos dificuldade em adotar até as medidas mais simples. Nesse caso, assim como o nudge pode influenciar as pessoas a comerem de forma mais saudável, economizarem dinheiro ou dirigirem com mais segurança, também pode ajudar a reduzir o contágio pelo novo coronavírus em locais públicos e estabelecimentos comerciais. Em locais públicos, avisos e placas que orientem as pessoas a lavarem as mãos devem não só estar bem posicionados, mas também ser visualmente claros, com o mínimo de texto e instruções passo a passo[8].

Foto 1: Pôster usado no Reino Unido, mostrando com imagens e pouco texto, como se deve lavar as mãos.

Sinalizações alternativas, como adesivos em pisos e paredes, podem guiar as pessoas até pias, dispensers de álcool gel ou banheiros mais próximos. 

Foto 2: Adesivos indicam dispenser de álcool gel em uma escola (nudgingforkids.com).

Manter o ambiente limpo e usar produtos de limpeza com cheiros fortes (como desinfetantes) também estimulam hábitos de higiene pessoal[9]. Nós mesmos podemos cantar o trecho de uma música, enquanto lavamos nossas mãos, para garantir a duração recomendada de vinte segundos.

Para evitar ou pelo menos diminuir a quantidade de vezes que tocamos nossos rostos involuntariamente, barreiras como óculos e máscaras são úteis, assim como usar perfume nos punhos ou pulseiras para chamar nossa própria atenção[10].

A ideia do nudge trabalha o que chamamos de arquitetura da escolha, ou seja, como a escolha é apresentada. Isso envolve alterar o cenário em que o consumidor toma decisões. Diversos são os exemplos de como as empresas estão alterando o ambiente de serviços para gerar mudanças no comportamento. Por exemplo, antes de a quarentena ser decretada na maioria dos Estados, várias cidades determinaram que bares e restaurantes aumentassem a distância entre as mesas ou assentos. 

Foto 3: Praça de alimentação em Singapura, com adesivos indicando assentos que não podem ser ocupados.

Sinalização especial, com marcas no chão, pode ser usada para ajudar a manter uma distância segura entre as pessoas em filas e delimitar áreas que devem ser mantidas livres.

Foto 4: McDonald’s em Cambridge, Inglaterra, indica distância entre pessoas nas filas com quadrados feitos com fita adesiva.

Foto 5: Fila organizada com cestos de compra no estacionamento de um supermercado em Roma.

Esse recurso também é válido no transporte público, para indicar o uso intercalado dos assentos.

 Foto 6: Adesivos orientam a não ocupar assentos nos trens de Palembang, Indonésia.

Diante da possibilidade de períodos prolongados de quarentena ou mesmo confinamento, as pessoas correm aos supermercados. Essa compra por pânico tem várias consequências negativas, e garantir que necessidades básicas sejam atendidas e itens essenciais fornecidos se torna um desafio importante para as empresas. Uma das estratégias mais usadas, de limitar o número de unidades que uma pessoa pode comprar, causa o efeito contrário. As pessoas ficam motivadas a comprar mais: entram na fila mais de uma vez, se forem um casal, cada um compra o máximo possível, e assim por diante[11]. Alternativamente, supermercados e farmácias podem indicar horários de compras específicos para grupos vulneráveis, distribuir os produtos mais procurados (por exemplo: álcool gel, papel higiênico, sabonete, farinha de trigo) em diferentes pontos da loja e deixar menos unidades expostas nas prateleiras.

Fake news e redes sociais


Além da pandemia do coronavírus, estamos expostos ao perigo de outra, provocada pela desinformação viral[12]. Longe de ser uma novidade, a epidemia da desinformação é capaz de causar danos reais à saúde das pessoas e facilitar a disseminação de doenças – caso do movimento antivacinas. Para ajudar a combatê-la, redes sociais poderiam usar “nudges de acurácia”[13], sinalizando conteúdos suspeitos mesmo antes de decidir censurá-los ou, ainda, tornando o compartilhamento menos imediato.

Uma simples mensagem que chamasse a atenção das pessoas para a necessidade de avaliar a acurácia da informação e sua responsabilidade ao compartilhar qualquer conteúdo poderia prevenir o compartilhamento de informações falsas. Um modo de despertar essa reflexão seria incluir uma tela intermediária ao clicar em compartilhar nas mídias sociais (Facebook, Instagram), perguntando se a pessoa tem certeza sobre a qualidade do conteúdo sendo compartilhado.

Assumir publicamente o compromisso[14] de adotar as medidas recomendadas também pode produzir um estímulo importante. O compartilhamento de hashtags como #FiqueEmCasa, #DistânciaSalva ou #LaveAsMãos, bem como o uso de temas na foto de perfil, também reforça comportamentos que se tornaram normas sociais durante a pandemia.

Ao compreender melhor o conceito de nudge e como ele pode ser usado para modificar o comportamento do consumidor percebe-se que existem avenidas inexploradas na luta contra a pandemia. Podemos e devemos utilizar essas estratégias de influência para fazer com que o resultado final do comportamento da população seja no sentido sugerido pelas autoridades de saúde, como a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Referências

[1] Kahneman, D. & Tversky, A. (1981). “The Framing of Decisions and the Psychology of Choice”. Science, 211, 453-458.

[2] Nudge é um termo em inglês que no contexto deste artigo é um pequeno empurrão em certa direção ou decisão.

[3] Thaler, R. H. & Sunstein, C. R. (2008). Nudge: Improving decisions about health, wealth, and happiness. New Haven (CT), Yale University Press; Thaler, R. H. & Sunstein, C. R. (2019). Nudge: como tomar melhores decisões sobre saúde, dinheiro e felicidade. Rio de Janeiro, Objetiva.

[4] Kahneman e Tversky, op. cit., 1981. A partir daí Thaler e Sunstein (op. cit., 2008) propõem o conceito de arquitetura de escolhas.

[5] Thaler e Sunstein, op. cit., 2008; 2019.

[6] OPAS Brasil (2020), “Folha informativa – COVID-19”, disponível em www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:covid19&Itemid=875, acesso em 9/4/2020.

[7] Ministério da Saúde (2020), “Saúde anuncia orientações para evitar a disseminação do coronavírus”, disponível em www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46540-saude-anuncia-orientacoes-para-evitar-a-disseminacao-do-coronavirus, acesso em 9/4/2020.

[8] The Behavioural Insights Team (2020) “Bright infographics & minimal text make handwashing posters most effective – result from an online experiment”. Disponível em www.bi.team/blogs/bright-infographics-and-minimal-text-make-handwashing-posters-most-effective/, acesso em 23/4/2020.

[9] Oullier, O., Cialdini, R., Thaler, R., Mullainathan, S. (2009). “Improving Public Health Prevention with a Nudge”, in Oullier, O., Sauneron, S. (eds), Improving Public Health Prevention with Behavioural, Cognitive and Neuroscience. Paris: Centre for Strategic Analysis, pp. 38-46.

[10] Crystal, J. (2020 Mar. 30). “The Behavioral Science Response to COVID-19 Working Group: Recommendations to reduce face touching”. Disponível em featuredcontent.psychonomic.org/introducing-the-behavioral-science-response-to-covid-19-working-group, acesso em 14/4/2020.

[11] Wansink, B., Kent, R. J., & Hoch, S. J. (1998). An anchoring and adjustment model of purchase quantity decisions. Journal of Marketing Research35(1), 71-81.

[12] Cf. Gyenes, N. & Mina, X. (2018, Aug. 30). “How Misinfodemics Spread Disease”, The Atlantic, disponível em www.theatlantic.com/technology/archive/2018/08/how-misinfodemics-spread-disease/568921, acesso em 9/4/2020.

[13] Pennycook, G.; McPhetres, J.; Zhang, Y. & Rand, D. G. (2020, Mar. 17). “Fighting COVID-19 misinformation on social media: Experimental evidence for a scalable accuracy nudge intervention” [Working Paper], disponível em doi.org/10.31234/osf.io/uhbk9, acesso em 9/4/2020.

[14] Como propõe a iniciativa Stand Against Corona (standagainstcorona.org, em inglês).

1 Comment

  • Ana Maria Roux, 29 de maio de 2020 @ 13:24 Reply

    O texto é interessante. Estudo decisões econômicas há 11 anos e venho trabalhando em um projeto, em parceria com fintech, para uso de nudges para otimização de decisões relacionadas ao uso de microcrédito.

    Fico contente em ver a divulgação do conceito que, há pouco tempo, era desconhecido pelo público empresarial brasileiro.

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