Análise do COVID-19 no Distrito Federal: Como estamos e para onde vamos?

O dia 11 de março de 2020 foi marcado pelo anúncio proferido pelo representante da Organização Mundial de Saúde sobre a pandemia do SARS-COV-2, popularmente conhecido como COVID-19. A partir desse anúncio, um conjunto de ações foram estabelecidas, ainda que de maneira diferente, pelos diversos países e colocadas em prática como forma de conter a disseminação do problema e para cuidar dos pacientes de maneira adequada.

No contexto brasileiro, o Ministério da Saúde publicou a Portaria Nº 356, de 11 de março de 2020, que estabeleceu as medidas para o enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus (COVID-1). Duas são as medidas mais retratadas, a de isolamento e a de quarentena, embora não sejam as únicas previstas.

No caso específico do Distrito Federal (DF), foram editados Decretos pelo Governo do Distrito Federal (GDF) com objetivo de enfrentamento ao COVID-19, sendo o primeiro do dia 11/03/2020. Atualmente, encontra-se em vigor o Decreto Nº 40.583, de 1º de abril de 2020, que suspendeu um importante gama de atividades, educacionais, artísticas, culturais e econômicas. Neste sentido, o DF apresentou-se como um dos primeiros entes federativos a tomar medidas mais enérgicas para evitar a disseminação do novo vírus.  

Como forma de verificar o potencial epidemiológico do COVID-19 e seu impacto sobre a população do DF foram realizadas diversas simulações. A primeira delas levou em consideração o modelo clássico – SEIR (Susceptível → Exposto → Infetado → Removido), que está sendo empregado em pesquisas na linha de frente, por exemplo Wu et al. (2020). A dinâmica deste modelo é caracterizada por um conjunto de quatro equações diferenciais ordinárias que correspondem aos estágios da progressão da doença:

Para a estimação do DF, não foi considerado no modelo nenhuma medida de contenção da disseminação do coronavírus. A população estimada foi de 3.172.783 habitantes, que apresentou o primeiro caso de infecção no dia 14 de março de 2020. O número básico de reprodução (R0) estabelecido foi de 2,2, o que significa dizer que se 10 pessoas infectadas consigam transmitir o vírus para outras 22. O Tempo de transmissão (duração do período de incubação – Tinc) foi de 5,2 dias e a duração em que o paciente pode infectar foi estimada em 2,9 dias (Tinf), conforme observado por (Li et al., 2020). A taxa de mortalidade foi estabelecida em 2,34%, sendo o tempo desde o final da incubação até a morte arbitrado em 30 dias. O tempo de recuperação, a partir do tempo de internação hospitalar, foi de 25 dias. O tempo de recuperação de casos leves foi estipulado em 11 dias. Por fim, a taxa de hospitalização do DF foi de 10%, sendo o tempo de hospitalização estimado em 30 dias.

Levando-se em consideração que o dia zero, momento em que apareceu o primeiro caso, foi o dia 14 de março de 2020, a simulação apresenta um cenário para o 100º dia, ou seja, 15 de junho de 2020. Neste cenário, em que não se considerou qualquer medida adotada, estima-se que, 3.096.498 pessoas são suscetíveis ao COVID-19, dessas 35.892 pessoas seriam expostas ao vírus, 51.532 removidas (a população não é mais infecciosa devido ao isolamento ou imunidade), um soma de 15.481 estarão infectadas e em circulação, 21.249 seriam os recuperados, 1.799 hospitalizadas e um total de 310 mortes. Ressalta-se que, no pico da hospitalização, um número estimado de 6.703 pessoas necessitariam de cuidados médicos mais intensos.

A partir do cenário epidemiológico, partiu-se para a análise dos casos reais do DF. Para tanto, foram desenvolvidos cenários, que levam em consideração a aceleração do crescimento observada no DF, bem como a aceleração do número de casos brasileiros. O primeiro cenário, utilizou a aceleração média do mês de abril; o segundo, considerou a média da aceleração do DF, a partir do caso número 150 (momento em que as acelerações – novos – casos se tornam menos instáveis); e, um terceiro cenário, considerou a aceleração do Brasil em abril.

Ressalta-se que o crescimento de casos no DF, considerando o mês de abril, foi de 4% em média (12/04). Quando se avalia a aceleração do DF, a partir do caso 150 (24/03), em que se suaviza as discrepâncias das acelerações, tem-se 7,01% de aceleração. No Brasil, o mês de abril apresentou uma aceleração média de 12%. Por fim, apresenta-se uma linha de tendência, logarítmica, cuja explicação é de 99,08%, para o cenário de crescimento de 4% no DF. A Figura 1 apresenta a representação gráfica desses cenários até o dia 31/04/2020.

Figura 1. Análise do crescimento de casos de COVID-19 para o mês de abril

Como forma de aprimorar a predição dos casos de COVID-19 para o DF realizou-se uma análise de séries temporais para o mês de abril. Os resultados, levando-se em consideração o intervalo de confiança de 95%, mostraram uma variação de 950 casos (limite de confiança inferior), 1024 casos (previsão) e 1099 casos (limite de confiança superior). Esses resultados podem ser verificado na Figura 2.

Figura 2.  Análise do crescimento de casos de COVID-19 para o mês de abril, por série temporal.

O atual cenário do DF, ainda que possa ser motivo de comemoração por parte das autoridades, requer uma constante necessidade de reavaliação, como forma de nortear os processos de tomada de decisão. A recomendação é que as autoridades realizem análises instantâneas dos novos casos para verificar o comportamento frente aos modelos apresentados, bem como a possibilidade de estimar o momento em que ocorrerá o pico de casos e de internações, possibilitando ações antecipadas e que minimizem o sofrimento da população e não sobrecarreguem a infraestrutura do Estado.

Por fim, pare verificar o impacto na o que representa uma desaceleração no número de casos novos, duas estimativas foram traçadas. Ambas, consideraram que 5% da população do DF será infectada (150.000 de 3.000.000 de habitantes) e que 14% será sintomática (21.000 pessoas). O primeiro modelo leva em consideração uma aceleração de 13%, o que estaria próximo da média do cenário brasileiro e o segundo uma aceleração de 5%, o que estaria próximo ao cenário do DF.

No primeiro cenário, o pico da epidemia, em que se acumularia a metade dos casos sintomáticos, ocorreria no final de abril, aproximadamente no dia 28/04, com 1.170 novos casos.  No segundo cenário, o pico seria deslocado para o dia 09/06, aproximadamente, com 506 novos casos. Essa simulação serve para exemplificar como as medidas antecipatórias podem influenciar a disseminação da epidemia e auxiliar nos processos de tomada de decisão acerca de quais medidas devem ser tomadas pelo gestor público.

Referências

Li, Q. et al. (2020). Early Transmission Dynamics in Wuhan, China, of Novel Coronavirus–Infected Pneumonia. The New England Journal of Medicine. 382, p. 1199-1207.
https://doi.org/10.1056/NEJMoa2001316.

Wu, J. T. et al., (2020). Nowcasting and forecasting the potential domestic and international spread of the 2019-nCoV outbreak originating in Wuhan, China: a modelling study. The Lancet.395, p. 689-697. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30260-9.

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